Resumo
O número 33 da Revista “Lusíada. Economia & Empresa” apresenta-se muito rico ao integrar um conjunto muito diversificado de artigos que vão da responsabilidade social nas empresas, a questões associadas às políticas de dividendos, passando pela adulteração da ajuda ao desenvolvimento, pela crise energética europeia (incluindo a problemática portuguesa), pelas cau-sas e consequências da inflação, pelo impacto da evolução demográfica em Portugal, pela Agenda Económica da Administração Biden e pela relevância das florestas no nosso País.
Os Professores Mário Antão, Cândido Moreira e Catarina Terrinca, no artigo intitulado “A influência dos prémios na divulgação da informação não financeira pelas entidades portuguesas”, tiveram como objectivo central comparar o nível de divulgação voluntária de informação entre instituições premiadas e as demais, com semelhanças em idade, localização e sector de actividade, a fim de se procurar compreender os aspectos tidos como mais re-levantes aquando da divulgação de práticas de responsabilidade social (RS).
Conclui-se que, em princípio, as organizações premiadas tendem a ser mais activas na divulgação de práticas de RS, incluindo os seus websites com áreas exclusivas para a divulgação dos seus projectos, explicitando os princí-pios de RS em que se baseariam para tal, ao contrário do que tende a suceder com elevado número de organizações não premiadas.
Por outro lado, o Professor Fernando Padilha, no seu artigo sobre “A Política de dividendos: abordagem financeira associada a variáveis quanti-tativas”, preocupa-se, essencialmente, com o modelo de Modigliani e Miller, assente no pressuposto de um mercado de capitais perfeito, modelo esse que conclui pela irrelevância da política de dividendos na determinação da rique-za dos accionistas, bem como com as teorias da agência e da sinalização (que abandonaram a condição inicial de um mercado perfeito).
O Professor Mira Amaral, no seu artigo “A crise europeia e o caso portu-guês”, começa por referir o que designa de descarbonização para, de seguida, mencionar a tentativa de diversificação energética da Europa face ao perigo representado pela excessiva dependência da Rússia. No final do seu interes-sante artigo, apresenta um conjunto muito diversificado de propostas para a política energética a implementar futuramente em Portugal.
O Professor Mário Caldeira Dias inicia o seu muito interessante artigo com um curto enquadramento histórico, caracterizando, de seguida, os di-ferentes tipos de inflação e explicando, de uma forma muito detalhada, as diferentes políticas de controle (ou de convivência) com a sobredita inflação que podem ser implementadas, procurando conciliá-las com a minimização dos custos sociais decorrentes do processo inflacionista.
O Professor Miguel Coelho, no seu artigo “Demografia, economia, saú-de e segurança social”, pretende, sobretudo, analisar, numa perspectiva de longo prazo, quais serão as consequências para Portugal, nos domínios eco-nómico, da segurança social e da saúde, de um “inverno” demográfico que se traduza numa rápida inversão da pirâmide etária, a par de uma redução substancial da população.
Patrick Sieger-Lathrop, com o seu artigo intitulado de “Biden’s Transformative Economic Agenda, Two Years into his Administration”, pro-duziu uma análise de grande alcance, em que estudou as limitações com que, à partida, se confronta a Administração Biden, para, depois, referir o conjunto de aspectos positivos e negativos das políticas que foram adoptadas, termi-nando o autor com uma nota de moderado optimismo.
O Professor Rúben Raposo elaborou um artigo intitulado “Da falta de mercado ao novo contrato social”, no qual salienta uma nova política de re-muneração dos serviços de ecossistemas em espaços rurais e florestais, servi-ços esses que têm que ver com o controlo da erosão, o sequestro do carbono, a regulação do ciclo hidrológico, a conservação da biodiversidade, a redução da susceptibilidade ao fogo e a melhoria da qualidade da paisagem.
Refere, ainda, o Programa de Transformação da Paisagem, a previsão de que vinte territórios venham a beneficiar deste Programa e o facto de, presen-temente, estarem em desenvolvimento quatro espaços florestais.
Finalmente, o signatário da presente Nota de Abertura tomou a liber-dade de contribuir com um texto intitulado “Da Adulteração da Ajuda ao Desenvolvimento. A presença chinesa em África”.
O autor pretendeu, no essencial, chegar às seguintes conclusões: 1) a presença chinesa em África não assenta, verdadeiramente, em Investimento Directo Estrangeiro de proveniência chinesa, antes passando pelo financia-mento de infraestruturas, crédito esse concedido aos Estados africanos e reembolsável em espécie, correspondendo a uma nova modalidade de “ajuda ligada”, altamente prejudicial para as comunidades locais; 2) a China preten-de impor ao Mundo, através da implementação da estratégia “One Belt, One Road”, um “normativo” mais “suave”, em termos sanitários e sociais, de acor-do com novas regras que permitam o acesso das suas empresas a mercados tradicionalmente tidos como mais exigentes.
Em síntese, trata-se de um conjunto relevante de contribuições analíticas que, para além de serem estruturais, se apresentam importantes como instru-mentos de reflexão pelos economistas e gestores que procurem compreender uma realidade que está sempre em movimento.
Sendo certo que ao conhecimento será sempre necessário aliar a firmeza e a força de vontade, porque, como dizia Fernando Pessoa, “não basta ter condições para construir o Palácio, é preciso conseguir mesmo construí-lo”.
Nem mais, nem menos…